terça, 16 de julho de 2019

Polícia acusa 13 servidores pela morte de 10 adolescentes durante incêndio em Centro de Internação de Goiânia

Polícia acusa 13 servidores pela morte de 10 adolescentes durante incêndio em Centro de Internação de Goiânia
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Polícia acusa 13 servidores pela morte de 10 adolescentes durante incêndio em Centro de Internação de Goiânia

A Polícia Civil indiciou, nesta segunda-feira (27/08), 13 servidores públicos estaduais por homicídio culposo no caso em que 10 adolescentes morreram em incêndio no Centro de Internação Provisória de Goiânia (CIP), ocorrido em maio deste ano.

Segundo a corporação, eles foram negligentes ao demorar começar a combater o fogo e a tentar salvar os menores. As câmeras de segurança registraram quando chamas.

A Polícia Civil não divulgou o nome dos servidores indiciados, mas a secretaria já havia afirmado que os 13 servidores haviam sido afastados temporariamente de suas funções.

Segundo o delegado Hellyton Carvalho, apesar do depoimento, os servidores afirmaram que começaram a combater o fogo assim que notaram as chamas, as imagens contestam a versão, indicando que os responsáveis pelo CIP só começaram a agir 5 minutos depois, com baldes de água, e só chamaram o Corpo de Bombeiros quase 20 minutos depois do incêndio ter começado.

“O que a gente observa é que o fogo foi constatado por volta de 11h10 e apenas por volta de 11h15 é que os agentes passaram a tentar combatê-lo, embora o procedimento operacional padrão deles diga que eles deveriam agir prontamente, seja no sentido de utilizar extintores, utilizar agua, ou acionar o Corpo de Bombeiros. O mais grave é que o Corpo de Bombeiros só foi acionado as 11h27, 17 minutos depois do início do incêndio”, disse o delegado.

O incêndio ocorreu no último dia 25 de maio de 2017, no Centro de Internação Provisória, que fica dentro do 7º Batalhão da Polícia Militar, no Jardim Europa, região sudoeste da capital. Segundo a Polícia Civil, o fogo foi provocado por menores de um dos alojamentos, que colocaram fogo em um pedaço de colchão.

Nove adolescentes morreram carbonizados no momento do incêndio, e outro menor morreu após quase um mês internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol).

Segundo a Polícia Civil, os fatos cronológicos foram da seguinte forma: Às 11h10 o incêndio foi notado por uma servidora que servia o almoço; às 11h11 o interno percebe o fogo e avisa outras servidoras; às 11h11 os servidores observam o fogo, mas não tomaram nenhuma atitude; 11h12 a Coordenadora sai para preencher solicitação de intervenção policial; 11h14 a Coordenadora e servidores observaram o fato e uma pedagoga aparece sorrindo no pátio, e nesse mesmo momento pede apoio a um interno, onde os dois vão para a ala que pega fogo e tentam apagar com um balde, enquanto servidores aguardam a chegada de uma mangueira; às 11h15 a mangueira chega e eles tentam acoplar à torneira, enquanto o menor continua jogando baldes d’água no fogo e alguns segundos depois a mangueira começa a funcionar e os servidores começam a combater o fogo; Apenas às 11h27, o Corpo de Bombeiros foi acionado, mas quando chegaram ao local o fogo já tinha sido combatido.

De acordo com o delegado, o inquérito aponta que não havia como os servidores terem aberto as celas, já que, além do fogo ter atingido a entrada do local, os internos haviam amarrado fios lacrando as grades. No entanto, o investigador concluiu que havia chances do fogo ter sido combatido pelos funcionários antes mesmo de atingir o alojamento e matar os internos.

“Ficou constatado que os próprios menores do alojamento atearam fogo em colchões e jogaram no corredor que fica em frente à entrada. Então o fogo impediria a passagem de qualquer agente para tentar abrir o local. Inclusive, no protesto deles, eles chegaram a amarrar com fios a entrada do alojamento, o que também dificultou quando os agentes, ao apagar o fogo, entrassem para socorrê-los. O que restava era apagar as chamas” “Acreditamos que se houvesse esta atuação mais enérgica no início, o fogo teria sido extinto no início”, considerou o delegado.

Os 13 servidores foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, mas se assume o risco de morte, já que, segundo o delegado, houve negligência no atraso ao socorro às vítimas.

Tanto durante a sindicância realizada pela Secretaria Cidadã, quanto durante os depoimentos à Polícia Civil, todos os servidores envolvidos no procedimento, com exceção dos coordenadores, afirmaram que não havia extintores na unidade. De acordo com o delegado, uma inspeção feita pelo Corpo de Bombeiros após o fato constatou que, atualmente, o local está dentro das normas técnicas exigidas.

A Secretaria Cidadã informou que existiam extintores de incêndio dentro da unidade no momento do ocorrido, mas que, para evitar que eles fossem utilizados em possíveis rebeliões, os itens ficavam guardados em outros lugares, como na cozinha, na sala de artesanato e no almoxarifado.

“Depois do fato, houve uma vistoria por parte do Corpo de Bombeiros, que constatou que atualmente o Centro se encontra de acordo com as normas técnicas. Ficou-se a dúvida em relação a época dos fatos, alguns servidores relataram que não havia extintores, outros disseram que havia, mas não souberam indicar onde estavam. Independentemente disto, o próprio procedimento operacional padrão diz que tem que ser avaliado o uso, seja de extintores, de água ou de acionamento do Corpo de Bombeiros”, disse.

“Independentemente se havia extintor ou não, tinha que ser usado baldes de água e a mangueira, como foi usado, de forma atrasada, e isso serviu para apagar o incêndio”, disse o delegado.

No relatório da sindicância, divulgado no último dia 14, consta o depoimento de um adolescente que disse ter ouvindo os internos pedindo ajuda. Um deles gritou: "Socorro, educador, ‘nóis’ (sic) tá queimando". Outro implorou:

"Vai nos deixar morre, educador? Ajuda, ajuda".

Ainda conforme o relatório, o circuito interno mostra que vários servidores passaram pelo local onde o incêndio ocorria e não "fizeram nada". Um deles, inclusive, faz sinal com as mãos em forma de desdém e ainda sorri "com total descaso da situação".

Fonte: Redação